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BRASIL, Sudeste, BERNARDINO DE CAMPOS, Homem
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BIOGRAFIAS III
A agulha que cavoca o teu pescoço, Busca o líquido da misericórdia Revela então o que sobrou nos destroços Maria Rita, 14, tem câncer tiroidiano Neste 2008, milagres de cura acontecem De JAVARONI pelas mãos divinas. Um corpo vira pó e um espírito luz Neste 2008 meu amigo Jacó Rodrigues Camargo Pelo mar Morto o barqueiro o conduz No Café Filosófico um tema recorrente... A morte do macho, branco, heterossexual Neste séc.21, Eunucos servidos livremente. Um homem entrevistado diz ser Tiete Isolado nos confins da Patagonia Na telina nossa cara é um chiste
A gana por um corpo perfeito Sacode jovens do terceiro mundo Os Laboratorios Globais fazem trejeito .
Escrito por ajfrederico às 18h15
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BIOGRAFIAS II
Nietzsche vaticinou ser o estado, Para os incompetentes a boa prisão. Libertos temos os salários achatados. Um jovem, mata os pais com as mãos. O repórter sentencia ter sido um surto Devemos ser referendados pelo rei Salomão? Chico Buarque, na idade do velho lobo namora. Beija na boca como se fosse o Conde Aqui, no Douradão, Bergerac sua vida rememora. Loucos amores remordem os telhados, Como as finas chuvas de verão. Bom para Os que têm sonhos velados. Bocas e olhos lacrados por mordaças, Alinhavados nas redes competitivas da T.V. Célere vão se esclarecendo as trapaças. Si bemois estridentes ecoam da Escola Fustigantes conteúdos são ensinados. Oh! somos milhões que vivemos da esmola. Milton Nascimento revelou-nos o coração americano. Acordes acordoantes tramados na Gerais Combates de morte contra o inimigo insano. Um furor de vazias barrigas Clamam por e-mails desatinados Mãos crispadas e sedentas urdem intrigas. Na urna voto a voto OBAMA não se contradiz A família tribal no Capitólio é ovacionada Da pequena Malya congelou-se o rosto feliz
Escrito por ajfrederico às 15h05
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Biografias I
Fixar um lance, um detalhe, um flash da vida destes habitantes do planeta terra.. Perpassam pela minha alma amores perfeitos, históricas lendas contadas sonolentamente as mesmices de tantos lares desfeitos. Ameaças futuras neste limiar de 2007. O planeta segue sua trajetória. Mal acreditamos que Zeus se repete Em Atenas hipotecou sua imagem Na Borgúndia acendeu vela para Deus e o Diabo. Ontem, na Serrinha, vieram lhe cobrar a vernissage. Amigo é coisa para se guardar no peito, Simulado símile trocado por vil interesse, Festiva canção colada na boca do reeleito. Orações pela paz ressoam no Vaticano As mesmas verberam nas mesquitas imperiais Então uma bala perdida atinge o menino suburbano. Um índio, 73, mineiro, jamais pede auxílio. Limpa, carpe, planta sem se cansar. Envergonham-se os que ganharam com o exílio? Roubou um litro de leite e foi presa. Nos EUA, o rabino, por quatro gravatas O romano Pilatos tem pronta as defesas. Neusirene está viva – uma dádiva! Olhos virtuais contemplam as enchentes. E a população afoga em dívidas. Caetano não chorou na fria cadeia. Camel esfumaçando leu O Estrangeiro. Sua imagem, na Abaeté, em lua cheia. Vandré, serviu a desnaturados deuses. Convocou a todos para se montarem. Na São João.em néon, tem-se o reflexo das rezes. Gilberto Gil, tomou para si o cetro da Cultura. Nesta Babilônia dá de beber do tinto vinho, Aos 666,o número daqueles da sagrada escritura.
Escrito por ajfrederico às 09h57
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Ironias de 1982
Ironias de 1982 A todos os japoneses, com os quais convivi, e que me ensinaram esta irônica trilogia. Voa em zoada silente abelha Em busca de receptáculo Todo amor um espetáculo Prova do amor a pueril donzela Saltita e ri feliz E cai nas vis mazelas Masca o fumo e cospe fogo O velho enrugado e só Que há muito saiu do jogo Chafurda na lama o porco feliz Mais porco é o hipócrita Que não sabe onde mete o nariz Vive de biscates o desempregado Vai e vende tudo que tem Pra acompanhar políticos safados A dança do ventre embasbaca O burguês todo pança Pior pra desdentada que entra na dança
Escrito por ajfrederico às 09h32
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A PEQUENA POLEGAR
A cidadezinha que insiste em não crescer È só um espaço entre a Casa Nova e a Igreja Matriz Mas, nesgas de memórias rondam minha cabeça calva. É paixão sufocando a amizade em hipocrisias comerciais. A rua de areão, de paralelepípedo, do impermeável asfalto. Indecifráveis mitos da cidadezinha que não cresce: - A pequena polegar da média sorocabana! Talvez desejos mascarados nos seios de tradicionais famílias? Contei, repisei uma a uma de ferro forjadas rebrilhosas pedras O olho infantil fincou-se na figura de vistosos alazões. E tordilhos exibidos, galhardos, paramentados, pisando o granito com ferraduras barulhentas e reveladoras carregando cavaleiros de chapéu boiadeiro e capa ponche Motivando aquele lado mocinho dos filmes de bang-bang É John Ford trazendo das bibocas os Sem Lei e Sem Alma São outros Fondas com “Clementaine” no Coreto bailando É o mundo de marlboro os ouvidos incautos enfeitiçando, em grande close, em preto e branco, a la James Dean, nos trailers rebeldes os anos sessenta amadurecendo, É Jett Rink, dissimulado, o rosto do rival socando. É o temido inimigo, a cidade pelo Begê esperando Eis que surge em cada lado coldres metálicos rebrilhando, dedos das mãos crestados, nervosos, armas sacando. É Shane de seu animal e de sua bravura despencando, o garoto boquiaberto na sarjeta da Marechal adulando. São caras maliciosas de marmanjões a caminho do confessionário, para segredar ao padre fraquezas desmioladas e beijos roubados. São passos contados dos devotos do “Pecador agora é tempo de contrição”, capazes de carregar a cruz de certo Senhor cheio de sabedoria. Levado no andor molhado por doces lágrimas de Filhas de Maria. Andor de andores minhas mágoas e dores carregando, Andor – negação com beijo em sua face, aos inimigos vou entregando Andor – culpa, pela coroa de espinhos em sua cabeça vou colocando Andor – perdão, com cravos na cruz seu corpo vou pregando Andor – remissão com a lança, seu lado esquerdo vou esfacelando Andor – expiação suas duas pernas num só lance vou quebrando Nave – andor nas asas da imaginação aos céus vão me levando Nos trilhos da Sorocabana os seus filhos vão sumindo, sumindoo Atrás das grades, pequenas penas vamos pagando, pagandoo Árvore de tronco envergado mais uma vida foi tirando, tirandoo Altas muralhas, os vizinhos foram separando, separandoo Trabalho forçado nossas forças minando, minandoo O poder e a riqueza os mais fracos massacrando, massacrandoo E as películas dos filmes sequem rodando, rodandoo A luz se apaga e os sonhos vão se realizando, realizandoo E dando os trâmites por encerrado, vamos nos perdoando, perdoandoo.
Escrito por ajfrederico às 12h00
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O HOMEM DE TERNO VERDE - OLIVA
Mais uma tarde cai neste maio de l970. O homem de terno de linho verde-oliva na volta do trabalho estaciona no teatro de Arena. Cuida em por um lenço branco sobre o chão de terra Vê atores representando ao ar livre da Praça da Catedral: cenas de casamentos ao som da Ave Maria de Gunot Usam máscaras persuasivas e às vezes amedrontadoras Altos tamancões, vestes leves, esvoaçantes em cores sépias Marcações de maquiagens marcam suas caras e olhos Ao som de tambores, convidados inventam a si mesmos Seus nascimentos, seus batismais votos de felicidades e fazem a maior graça que sejam vistos e aplaudidos ao ribombar de frenéticos rojões e morteiros. Então o homem de terno de linho verde – oliva Na volta do trabalho, acomoda-se entre os circundantes deixa-se levar por um estado letárgico e indulgente e se associa a mais sintomáticos quadros da peça, como se fosse reconhecendo sua outra cara, sua outra imagem se desfazendo da antiga. E amanhã e depois de amanhã e por muitos maios ele vai estar aqui, por mais que se canse da insensatez e do orgulho inglório e inútil dos atores e deste lugar do qual não pode fugir, e do terno de linho verde-oliva de que não pode se livrar. E tantos outros casamentos vão desfilar diante de seus olhos ao som de agudas trombetas, outros de pungentes violinos, repiniquinique de taças de cristais saudando os eleitos que por certo viverão um amor perfeito, um sexo perfeito regados pelo elixir da eterna juventude... E o homem trágico, por baixo do terno verde – oliva exibe seu corpo tão desejado e desejável erguendo taças borbulhantes de champanhe despindo-se da gravata e de sua camisa lilás dando-se a conhecer para convidados sem importância que dele se acercam e para ele fazem as cerimônias: - Eis o homem que luta, luta e jamais vencerá! Cantam em coro os atores e convidados. -Quem grita meus bordões é que não me conhece. -Aqui venho e virei nesta arena desta praça da Catedral, com pena de nunca mais me achar!
Escrito por ajfrederico às 18h16
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SERVIÇO DE UTILIDADE PUBLICA
“Desse profundo sono fui tirado por horrendo estampido estremecendo como quem é por força despertado" Canto IV, Divina Comédia Pede-se quem encontrar seu Avelino Que se comunique com a rua das Amarguras Número cento e nove, fundos. É negro, de sessenta anos Sofre do coração E saiu de casa sem destino Por favor, comunique-se. Família alucinada recompensa bem! É bom de coração, bom Mas de coração fraco. Criou treze filhos Todos eles bem empregados Casados e... constituíram família. Por favor, procurem seu Avelino Ele nasceu na África Sua alma é de artista Conhece muitas coisas Fala bem, escreve bem, e canta Seu Avelino tem os cabelos brancos Trajava calça branca Branca a camisa e os sapatos Por favor, procurem seu Avelino. Ele saiu, talvez para fazer passeio. Mas sofre do coração?! E dificilmente irá resistir Este trânsito louco -Esta confusão toda -Esta falta de comunicação E seu Avelino gosta de falar E de cantar e de se expandir E como canta...! As suas composições são tristes Falam das dores dos homens Falam da poesia da vida Por favor, todos vocês Que por ventura o encontrarem Comunique-se: A rua é das Amarguras, fundos Todos vocês: boêmios Estropiados, estudantes Poetas e mendigos Industriais e homens de negócios Procurem seu Avelino. Criou treze filhos Todos empregados Todos alfabetizados. Mas procurem mesmo! Não se façam de rogados Ele é preto e se veste de branco. Deixem suas andanças Suas conquistas amorosas (Olhem que já é meia noite) Esqueçam o teatro e o cinema Esqueçam a festa do doutor E procurem seu Avelino. Família amargurada implora Seu Avelino é homem correto Trabalhou a vida inteira O único defeito era o de beber E isto só o fazia cantando (Seu Avelino cantava todo dia) E seu coração enfraqueceu-se Hoje ele partiu sem destino... portanto implora-se para benevolência Para a compreensão dos homens, Para a humanidade dos homens. Que se encontrarem seu Avelino Comunique-se com o endereço acima. ( fevereiro de 71 )
Escrito por ajfrederico às 23h07
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TEMPO QUE FLUI EM SILENCIO
O circo chegou. E um comichão se instala ao longo da Marechal Bandinha, retreta, buzinas vão chamando o povo. E persistem batendo de porta em porta. Chamando as crianças para as sessões de matinês, com grande atrações de palhaços, de malabarismo, animais amestrados. Para garotões um halo de atrações sensuais atiça-lhes o fogo do desejo e da paixão. O jovem tem o espetáculo para se insinuar para a malabarista, sempre linda e faceira, ou para as adolescentes de corpo de mulher. que passam sedutoras vendendo suas fotos. As garotas da cidade bem cuidadas, perfumadas, lábios sedutores, olhos insinuantes, cabelos perfumados, provocam o artista principal, o galã ensimesmado para num lance extremo de Romeu apaixonado, levá-las para bem longe dos olhares de gente invejosa. Já as solteiras desesperançosas, faceiras, com trejeitos, oculta dos olhares indagadores de outras mulheres, fantasiam cenas e affairs do conquistador Casanova, em filmes italianos proibidos para dezoito anos, revelados em picantes, sensuais estrelado por Marcelo Mastroiani. E acabado o espetáculo, o mocinho conquistador, ressaltando suas qualidades viris em três atos, na calada da noite, invade o quarto da desprotegida donzela, num lance, espetaculoso, onírico e arrebatador, penetrando a intimidade pela janela do quarto desnudo e enlouquecidamente entregam-se nos braços de morfeu. Em muitas oportunidades o sonho virou realidade. E a cidade amanhecia fervilhando de boatos e comentários. O Circo também tecia elos de irmandade benfazeja, de aproximações e aprendizagens comerciais, conteúdos significativos da arte de interpretar, das técnicas de malabares,das encenações, dos improvisos Era o circo nossa lavagem de alma, o frenesi de arrefecimento de nossas luxúrias, que a gente levava para a solidão da Marechal, presa no peito a foto comprada na arquibancada, e desenhando sonhos no torvelinho da noite tortuosa, com mulheres de pele aveludada e macia. E libidinagens juvenis em cinemascope, eram escritas em solitários álbuns de poesia.
Escrito por ajfrederico às 11h44
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IRACEMA ME LEVA PRO MAR?
Iracema leve-me pra Paranapiacaba Iracema eu quero ver o mar! Quero te olhar direto nos olhos É que não posso mais me enganar. Então tira do meio de nós este homem gordo impertinente. Me livra de todos os olhares, que me espreitam nesta viagem. Me coloca uma placa de proibido proibido perguntar, proibido julgar. E navegar não é proibido, Iracema! E eu quero ir para o mar... Preciso sacudir meu corpo e salgar meu espírito impuro. Tirar esta inhaca de minhas vísceras, na descida para Paranapiacaba. Deixo estas luzes de neon de São Paulo. Deixo para trás os que de mim dão risadas, os consoladores e os consolados, os procuradores e os procurados, os litigantes e os apaniguados, os justiceiros e os injustiçados, os carcereiros e os encarcerados, e também os amantes e os mal amados. Vamos trem! Deixe de discursos execrados. Bota força total para a Railway me carregar. Não deixe, Iracema, ninguém na porta ficar pra não atravancar a passagem. A vida de muita importância é perigosa, e milhões de viajores estão de fora desta viagem feita a toque de caixa. O tempo é de espetaculosos noticiários, tempo de famílias inteiras acuadas, de balas desatinadas em inocentes alvos, de gente idosa se esfregando em espinheiro, de jovens rodopiando em ácidas peripécias, e em tramóias acertadas no parlamento. Desça as cortinas, esconde tudo lá fora, Iracema! Que eu não quero sujeira rolando, nas águas mudas e mortas do rio Tietê. Nem poderosas árvores deitadas no chão. Nem crianças rotas e magras no Brás, Muros cinzentos e desbeiçados no Ipiranga Filhos escanchados nas porteiras da Mooca Polícia atirando no povo em São Caetano Passeata escabrosa em Santo André Chegada de retirantes em Mauá Perplexos turistas em Ribeirão Pires Homem de cigarro de palha na orelha, sentado a beira do Rio Grande da Serra. E piso úmido da plataforma em Paranapiacaba. Prepare-se, Iracema que vamos descer a Serra, como quem desce e escorrega na morte como quem atravessa noite fria e caótica como quem busca escondido o seu norte.
Escrito por ajfrederico às 20h31
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COISAS DE PAI
“Guardei-me para a epopéia que jamais escreverei” Drummond de Andrade
Menino! Vem ajudar seu pai aqui no balcão. Conte direito os colchetes de gancho na cartelinha. Os de pressão são os mais usados e procurados. O Atílio compra entretela pra por na gola dos casacos, e linha corrente nº 24 pra pregar os botões. As tarefas têm que ser muito bem feitas: O faile, a laise a seda bem cortada, no fio, e também os botõezinhos encapados na cor do vestido, cintilam nos corpos das mulheres. Enrole a seda olhando nas bordas de fora. O Laércio Cardoso mandou buscar o linho cento e vinte Vai fazer um terno pro casamento da Dalva. Sábado a noite vou pousar no Paranapanema. Então, cuidado ao entrar no quartinho de fora, que eu desmontei a CZ inteira pra ver o defeito. Ela não pega e estou com câimbras de tanto pedalar. Que coisa é essa moto checoeslovaca, vai acabar é me dando problema de coluna. Vou ter que comprar uma Jawa 250. O Parmínio tem uma NSU, de 500cc. O Zé Lopes tem uma também, alemã, portentosa. Estes dias ele focinhou no areão, ali na descida do cemitério. Para carregá-lo foi preciso tirar a blindagem de inox, que por certo ele carrega envolto em seu corpo, que além de protegê-lo, como o próprio nome fala, o livra de todos os males, amém. Dias destes, o Bittar desceu com uma Harley Davison Deu Cavalo de pau em frente a Casa Nova, levantando poeira do areão seco da Marechal. Todo mundo ficou de olhos arregalados, abobados, contemplando a moto com o coração na boca. Vou por o despertador as cinco da manhã. Tomara que o Ouro Verde não atrase. O seu Manoel disse que viu você, que ia pegar um pedaço de bolo de coco com goiabada. Ele falou que é só pedir para ele ou para D. Maria. Ela gosta de você e até bife na chapa rega com azeite. O seu Manoel trava é uma birra enorme com seu tio Norberto. Também ele não é flor que se cheire, e espírito de porco como é, lá na plataforma, o botequim lotado de nordestinos que descem para o Paraná... e vai o Norberto e imita o apito de comando do chefe de trem. Acontece que o povo apavorado sai sem pagar, e ele desesperado, corre atrás de um ou outro, e a 910 arranca como um vento, e só lhe sobra contar o prejuízo. Não vai mexer no Colt Cavalinho debaixo do travesseiro. Está ali para a eventualidade de alguém arranhar a janela, E a gente não ter o ímpeto de sair correndo, com medo dos bichos da noite, que povoam esta cidadezinha. Se bem que inda outro dia sai de madrugada, de muita chuva e vento, e encontrei o Luis Borges, chapelão, capa ponche, montado na mula preta, toda paramentada, espumando, salteando de atravessada. Toda argolada de prata, bridão retinindo, encilhada Noite! -desejou segurando o chapéu preto, abado. Noite! –respondi, como a coruja respondeu para o gavião, na solidão de sua devoção e desvelo de seus filhos, os mais bonitos de todos que fossem encontrados. Bem, boa noite, filho! Joguei moedas de chocolate Gardano por cima do biombo, duas para cada um . A noite é curta e na rua vazia cabem todos as dores dos homens.
Escrito por ajfrederico às 18h02
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MARRA CONTRA MARRA
Para uma desconhecida espanhola que se postava em frente ao Teatro de Arena. Hay un cierto momento de mi vida, que las cosas se entrechocan, como lo entrechocarse de los cuernos de los toros. Hay allí producciones de estertores entonces sintome como lo espacio apertao que hay entre los hocicos d`ellos los dos –cuerno contra cuerno o haliento, de fuego, caliente chispas saliendo de sus negros ojos la lucha por el campo la lucha por la hembra ( fim de noite de 69, encostados na parede do Som de Cristal) Aos 29 anos nada mais há a provar desta inutilidade de vida, nesta falsa busca de prazeres sempre desprazerosos. Então, espanhola, não me digas nada! Que nada é o que fazemos da vida. Não me venhas com estas inutilidades o que você faz na vida? Você é solteiro ou casado? Também não preciso revelar que é nessa hora que tenho vontade de chorar, que tenho saudades de mulher nenhuma e ao mesmo tempo de todas. Portanto não procure ver em mim bondades e firmeza de caráter, pois em minha fragilidade defendo também frágeis mitos, como este de fumar um-atrás-do-outro e de muito beber. Outro é o caminho de cada um, mas o meu levo em seu bojo crenças de deuses e de destinos que me impuseram, sabendo que não sou único como quer fazer acreditar o bem-te-vi que canta fora de hora, desta madrugada inuzitada. Bem-te-vejo, cantou o pássaro, e que nunca "terás direito exclusivo sobre a espanhola", como o tema do samba canção entoado por Jamelão insiste em atravessar as paredes e repisar minha vontade, só porque não sustento meus próprios sonhos, quanto mais os delas. É este ponto no horizonte, então, que marca o meu querer, por isto mesmo inalcansável. Só fica esta certeza que devo ficar no banco da gare da Luz esperando o primeiro subúrbio passar e emendo noite com o dia. Então abro meu caixão mortuário e sigo para a procissão de trabalho forçado. Aqui me despeço, espanhola. Já dobrei e botei no fundo do coração o poeminha que você traduziu. " Yo espagñola quería tenerla también plegada em mi corazón".
Escrito por ajfrederico às 19h03
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RUA MARECHAL DEODORO
Marechal. Deodoro não é um nome de rua Mas é o nome da rua principal de minha cidade. Eu não conheço o Marechal Deodoro. Confundo-o a significados de guerra comandando pelotões de soldados batendo forte os coturnos pela rua poeirenta, desfilando pesados caminhões verdes, e assustando jovens e frágeis mulheres. Em poucos quarteirões, numa só reta espraiada. Nunca ousou grandes nuances e arrojos, de conceber, a Niemayer, vertentes construções, curvas envolventes, ogivas sinuosas, vãos livres e libertadores, catedrais de vidro. Longe de encontrar construções coloniais, beirais de parede com volutas barrocas, portas embandeiradas em madeira de riga Ela também é uma passagem passageira, Do “Ó vós homens” pungente da Verônica, Da mãe levando o sudário esvaindo em dor, da disputa para carregar o Cristo crucificado Até o estrondar de ardilosos rojões açodando a aleluia. Entre janelas de sul a norte que arrepia a vida alheia, numa prática de cotovelos fincados no parapeito, de soslaio, como quem não quer nada com nada... -“Sai cotovelo de cabrito! Procura chifre na cabeça de égua, ou fumo pro seu pito?!” E o resto daquele que “ó- não-ia-parar-mesmo”, guarda–chuva nas costas sai como um “coisa-ruim”, levando para seu canto mais que o despeito, o emaranhado das desfeitas desferidas em série. Pela Marechal, encana também o vento sul. Irrompe desavisadamente, levantando saias plissadas, topetes engomados, paramentados e bem cuidados. Então sobra de nós só um estratégico recompor-se, Uma fuga para a sessão das dez do Cine XV E a bala “toffee” liquidificando em nossa boca Extrai o suco de nossos desamores e paixões, projetados na grande tela iluminada
Escrito por ajfrederico às 21h16
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MANDE NOTÍCIAS DO LADO DE LÁ
Zé o menino nem 4 anos tem e desaparece assim. Vê se tá no buracão remexendo terra colorida. Sei que não mostra nem um pingo de pressa de voltar. Ali constrói castelo daquele barro furta-cor, e um príncipe aureolado por flor de maravilha povoa os mármores dos pisos, bota sentinela no alto da torre de pedra, engenha a ponte de ligação entre esta realidade, e a fuga própria de todo menino. Eia meninice! Se instale no cordame das violas sentimentais, de tal sorte que o choro, violado, não é por ver presenciar caminhões verdes, carregando soldados para as fronteiras do inferno; não seja, também o lado oculto, da outra face de homens, que entoam hinos de louvores aos anjos e arcanjos, e depois maculam suas vestes, e tropeçam nas valas abertas de esgoto. Eia meninice! É o garoto zunindo, como um bólido imitando motor com a bochecha estufada. vhuuuummm! uhoummmm! Traga fósforos, palha de aço e massa de tomate! E ele, meu menino vai institucionalizando o ato de fazer, afazeres acertados com Dona Helena da pensão; ou levando o tabuleiro mágico, enroscado no pescoço, para a plataforma da estação no horário do Ouro Verde. repletinho de guloseimas para os olhos dos nordestinos. " Olha o requeijão-doce de leite-goiabada! Olha a rosca doce! É o leite quentinho". Menino peço agora neste momento que apareça de vez, Já é quase hora da janta e você tem banho para tomar. Seu Hermelindo perguntou de você. Dona Lourdinha pediu sal pra janta! Dona Maria Viviani, dona Lourdes do Correio, dona Mariquinha Vac e todos lá da Pensão combinaram para você ir bem cedo para dar o ano bom. Disseram que dá sorte sendo um menino por primeiro. Tenho uma notícia terrível pra te contar! O automóvel do Próximo matou o luluzinho. Tá lá o corpo dele estendido no chão. Aqui em casa a Cotinha aprontou o maior berreiro. Seu pai levou a tristeza lá pro fundo do galpão. O vestido de noiva da Zelinha ficou tão bonito e eu nem mesmo as medidas dela tirei! Ouça! É hora da Ave Maria! Repara no sorriso, gestos e bocas de seu pai. Nas nesgas subterrâneas de erguer a cinta para lhe bater. Veja bem no fundo dos olhos estampadas, a fria e neutra satisfação de ter os filhos que tem, e o que vai transmitir de muito pouca balda, mas a herança de suportar os sofrimentos alheios. Sua avó Filomena passou aqui como um vento. Fez jogo de bicho, comprou sinhaninha pra pano de prato. A linha engruvinhou na agulha da máquina Singer justo agora que ia eu plissar a saia da Cotinha! Eu sei que você fugiu para ir à igreja. A gente não quer tocar muito no destino, mas volte-e-meia nosso siso fica acinzentado, atrapalhando nossa vontade de acertar. junho de 2009
Escrito por ajfrederico às 17h08
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TERCEIRO SÁBADO
À dona Didi, minha mãe, 93 anos, que por certo, ditou para mim esta inusitada convocação, nos anos 60. Ficam convocados os fazendeiros e sitiantes do entorno e também todos os administradores, colonos e agregados para neste 3º sábado do mês de maio dos anos sessenta na extensão de 3º a 6º quarteirão da Marechal Deodoro, e também juntos dos moradores urbanos desta cidade, assistirem a assinatura de um documento de muita honra, que acaba por vez com trama insidiosa do ato de barganhar. Faz parte de nossos meios fazer a convocação com dignidade e a mais completa revelação das opressões preparar: dos castigos, das falsas sentenças, dos desvios de salários, dos descontos indevidos, dos juros cobrados com sagacidade Amplos espelhos ao longo da Marechal vamos espalhar... meios próprios para tais revelações e já lendários Acreditamos que neste ato, veremos banidas as desigualdades. Pois que venham o Reizado, a Congada e a Catira para conta da rua tomar, e se apresentar com a majestade de seus cantos e fabulários. A revelação se fará de modo inesperado, não muito a relatar. A pessoa passa em frente ao espelho e tem sua imagem trocada. De imediato irá mudar para a cor de seus pecados, a saber: o amarelo para os falsos, os hipócritas, os ursupadores; o cinza para aqueles que "os fins justificam os meios"; o vermelho para os prepotentes; o verde para os ditadores. E que não há nenhuma relação simbólica das cores elencadas. Estão fora as crianças puras de quaisquer entremeios, cujas mentes pela de seus pais não foram contaminadas. Elas assistirão estarrecidas verdadeiras revelações, quando uma cor incriminativa e comprometedora neles colar. Neste momento se faz necessário a ajuda de um adulto, do mesmo quilate de pureza para juntos a dor suportar, e que seja anteparo sólido neste muro de lamentações. Pode acontecer ainda que colonos e outras gentes sem par, poderão assumir a balda dos que pensamos fossem culpados. tendo assim a vez e intenção de um dia virar o patrão. Agora que o aviso nos postes e murais foi colado. Neste cair de noite, nestas luzes mortiças, neste samba dolente... “Errei sim, manchei o teu nome. Mas fostes tu mesmo o culpado”... “De Felicidade para Miranda” dedicada no serviço de auto-falante" E exaltando-se o tudo enchendo o nada, nesta rua vazia, de mortais que querem somente devolver a Deus,intacta, a sublime essência de ser um humano, em toda a criação, sem contudo perder de vista esta divina tributação. E dando tudo por resolvido, encerro esta convocação. ( maio de 2009 )
Escrito por ajfrederico às 16h25
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Derradeira Despedida
É o meu estado de infância, que embala minhas emoções. arrepia meus cabelos e pelos, me atinge o corpo em fogo de fornalha. É a locomotiva, que rompe a plataforma, e brinca de esconde-esconde com viajantes, nos tufos branquinhos e quentes de algodão. É felicidade que se transfigura em murmurinho, nem só os ouvidos entre os passageiros, mas os que abrem a porta do vagão-correio, e descarregam notícias que vem do lado de lá. É a vista de elegantes silhuetas no restaurante, sorvendo refinados vinhos em taças rebrilhantes. É o mágico silêncio dos misteriosos carros-leitos, acomodando cansados viandantes renitentes. que dormem o sono dos justos. É o menino deslizando sobre a plataforma, e leva o tamborete carregado de guloseimas, oferecendo a graves e sonolentos retirantes: o pão doce, o requeijão em barra, o doce de leite, floreado por “leva este freguês”! ”Olha o pão doce”! Lá na frente a 982 respira suave e mansamente. O chefe de estação dá o sinal de aviso. O apito saudoso, em dueto, entoa a melodia: a do garoto que refaz e reconta os trocados, e deixou para bem vestidos desconhecidos não só o copo de café com leite, pão com manteiga, mas a seu mais puro e terno sorriso, de um olhar vago postado na imensidão dos trilhos, desejando a todos que carreguem com eles o que sobra da gente depois da partida.
Escrito por ajfrederico às 21h59
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